O autor começa por indagar testemunhos dos sobreviventes judeus do gueto de Varsóvia, enquanto constatações de uma herança com contornos que dependem da multiplicidade das memórias e das concepções do tempo histórico. Os testemunhos dessa herança de coragem e combate após a guerra, mas também as análises de historiadores e pensadores de origem judaica, permitem destacar o âmago da consciência da tradição, o destino e a fé dos judeus na Europa, que instigam a inquietação política. Deste modo, questiona-se a condição assimétrica da memória e a sua tendência religiosa e ahistórica, sublinhando-se o posicionamento dialéctico de W. Benjamin para reivindicar uma prática da história reconhecível (E. Bloch, B. Brecht) pela sua inerente coragem política.
Estas são algumas das respostas que consideram as aporias da herança e afirmam «uma determinada verdade» sobre o complexo e doloroso contexto da memória e do tempo histórico.
Todavia, é com Hannah Arendt, e contra uma perspectiva «revisionista» da história, que o autor diagnostica o hiato «entre passado e futuro», para evidenciar a «força diagonal» da liberdade sobre o pensamento. Se a questão da memória é, antes de mais, analisada como uma questão da política, a coragem será, pois, a potência entendida como «faculdade de começar», essa virtude capaz de «fazer aconteceralguma coisa», ou seja, exercício de liberdade, cujo alcance político surge no mundo «como uma “improbabilidade infinita”», e cuja amplitude constitui «a textura de tudo aquilo a que chamamos real». Na sequência do pensamento clássico, em H. Arendt a coragem adquire uma manifesta força de levantamento, de luta e resistência, contra todas as formas de poder e violência, permitindo, assertivamente, confrontar as razões que levaram os judeus e sionistas à consumação do «erro» político fatal que culminou na criação do Estado de Israel.
Didi-Huberman evidencia as diferenças e paralelos que decorrem entre a luta corajosa dos judeus pela liberdade no gueto de Varsóvia e as ameaças atuais do totalitarismo, do colonialismo e do fascismo, que podem emergir em qualquer horizonte.
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