Desde que voltei de Cuba, depois de ser banido pela ditadura e passar quase dez anos no exterior, venho acalentando a ideia de escrever as minhas memórias, num primeiro momento impedidas pela situação em que nós — Arlete e eu — retornamos ao Brasil. Nas palestras que ministrei, depois de nossa volta aos diálogos, muitas vezes me deparei com a expressão, geralmente exclamada por jovens, "vocês fizeram quase tudo, não restou nada para nós". Ao que respondia não ser verdade, pois a revolução brasileira, ainda, não foi feita, está inteira por se realizar, e isso deve ser protagonizado por vocês.
Nessa autobiografia procurei seguir, como marxista, a citação de Karl Marx mostrada na introdução do livro. Isso facilitou a minha narrativa e pode facilitar, também, o seu entendimento sobre mim, ou seja, vocês podem achar que sou diferente do que acho de mim mesmo. O propósito desses escritos é esclarecer por que fiz tudo isso, por que lutei contra a ditadura. O fim dessa luta era defender a democracia, num primeiro momento, como a maioria dos estudantes desejavam; depois alcançar o socialismo como nós, os estudantes comunistas, sonhávamos.
O socialismo, que desde a juventude eu me pus a pensar, foi o mote básico, a motivação de minha vida. No início, de uma maneira romântica, eu idealizei o socialismo cristão praticado nas catacumbas, perseguidos pelo Império Romano e defendido, então, por uma parte da Igreja Católica, a Igreja progressista. Posteriormente, já na universidade, esse pensamento evoluiu para o socialismo científico, conforme teorizado por Marx e Engels, durante a década 1870, na obra Anti-Dühring. As bases do socialismo científico são o materialismo histórico e a lógica dialética, ambos constituíram a base filosófica para eu entender o mundo. Um mundo construído pelos homens colaborando entre si na maior parte do tempo, trabalhando, estudando e tentando construir um mundo melhor para si e para os outros. Contudo, de tempos em tempos, há a predominância de uma contradição insolúvel entre eles que os fazem agir como competidores. Assim, a história cria as condições para o progresso durante os tempos em que predomina a paz entre os homens, para então desabrochar os períodos de luta entre eles. É a luta de classes que se vê ao longo do passado da humanidade, escravos x senhores de escravos, servos x nobreza, e, atualmente, proletários x burgueses.
De qualquer modo, no decorrer da história, os povos sempre preservaram o que lhes era fundamental à sobrevivência. Agora, a continuidade da humanidade está ameaçada por meia dúzia de exploradores que continuam a roubar os ganhos do dia a dia. É preciso parar com isso.
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